Implantação da UTI e do PS

Há mais de 40 anos, o cardiologista Antonio Carlos Micelli começou a trabalhar no então Hospital São José do Brás. Era 1973 e o médico veio com uma missão muito bem definida: montar o que ele diz ser a primeira Unidade de Terapia Intensiva da zona leste da cidade de São Paulo. 

Foi Luiz Venere Décourt – um dos responsáveis pela realização do primeiro transplante de coração da América Latina, juntamente com Euryclides de Jesus Zerbini – quem recomendou Micelli ao então diretor clínico Dr. Luiz Brunetti. “O conceito era que a UTI só poderia ser instalada nas regiões mais nobres da cidade”, lembra Micelli. Esse conceito – que limitava o acesso às UTIs a pessoas de maior poder aquisitivo – se hoje parece equivocado, tinha, na época, razão de ser. 

As Unidades de Terapia Intensiva eram uma novidade recente no universo da Medicina. A primeira UTI foi criada em 1926, em Boston, nos Estados Unidos, por Walter Edward Dandy. Mais tarde, durante a década de 1950, Peter Safar, considerado o primeiro médico intensivista, foi responsável pela implantação da primeira UTI cirúrgica, na cidade de Baltimore, também nos Estados Unidos.

Aqui no Brasil, de acordo com o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (CREMESP), a primeira UTI respiratória surgiu no Hospital dos Servidores do Estado do Rio de Janeiro, em 1967, graças aos estudos de ventilação mecânica do médico Antônio Tufik Simão, que esteve à frente da unidade até 1990. Em São Paulo, o pioneirismo das UTIs coube ao Hospital das Clínicas já nos anos 1960, de onde Micelli veio para o Hospital São José do Brás. 

“Foi uma espécie de refundação do hospital”, diz o cardiologista sobre a implantação da UTI, que começou a funcionar em 1975 no terreno da Av. Celso Garcia. De fato, foi preciso realizar mudanças conceituais no atendimento do hospital para viabilizar a UTI, que demorou um ano e meio para ficar pronta. 

A grande mudança conceitual foi a criação do Pronto Socorro, na mesma época, cujo funcionamento estava vinculado à existência de uma UTI. Era assim que o cardiologista havia aprendido no HC: o PS traz uma quantidade e variedade maior de urgências e emergências, o que provoca um aumento de demanda e justifica os investimentos e a implantação da unidade de terapia intensiva num hospital. Essa decisão mudou a forma do exercício médico existente no hospital até então. 

“Um médico, no plantão, tem que ter bom senso, ter consciência de que não sabe tudo, porque no plantão chegam as coisas mais inesperadas. Então, ele tem que saber o que é preciso priorizar”, explica Roberto Badhur, plantonista no hospital desde 1969, que passou pela transição da implantação do PS e da UTI. “Quem não faz urgência só sabe meia Medicina”, afirma. 

Badhur lembra que a UTI da instituição era redonda, o que permitia que os médicos tivessem uma visão geral dos pacientes, e que para lá iam todos os que passavam por grandes cirurgias. 

Para implantar a UTI, foi preciso fazer a adequação da planta física do hospital. Micelli, chamado para pensar a obra, diz que havia três enfermarias e duas grandes salas de curativo e que, a partir da planta, foram escolhidas as áreas para receberem os equipamentos, leitos e pacientes. Segundo ainda o cardiologista, eram seis leitos no total, sendo dois dedicados à terapia semi-intensiva.

Fontes: UTI – Passado, Presente e Futuro (Tarcísio Nélio Cunha), Jornal do CREMESP, edição 261 (julho/2009), além dos depoimentos dos médicos Antonio Carlos Micelli e Roberto Badhur.